quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Coração Andarilho

Meu peito inflama. Minha boca arde. Meu coração cansado bate.
Hoje tenho os pés cansados de um coração andarilho...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sexto Capítulo - Entre Sobremesas

(um post comestível sob qualquer ponto de vista.)

Existem tipos e tipos de mulher. Bem como tipos e tipos de sobremesa. Não sei se vocês se lembram da tragicômica cena protagonizada por Julia Roberts e Cameron Diaz, em “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, em que as duas discutem sobre pedir Cremme Bruleé quando na verdade, o que você realmente quer é gelatina. Nem preciso dizer que Julia é gelatina. E, se fossemos dividir as mulheres nestes dois grupos, a mulher gelatina seria bem diferente do que seu nome propõe.
Pode até ser difícil de explicar, tendo em vista que atualmente tudo o que é alimento vira atributo de mulher, especialmente as frutas. Mas é só olharpara Julia Roberts qu você entende. Enfim, a pergunta é: Por que no fim das contas a gelatina não vence o Creme Bruleé? Bem, se você já assistiu ao filme, sabe que o bonitinho fica com Cameron Diaz. Eu realmente não entendo.
O Creme Bruleé é sim, delicioso. É chique e sofisticado. O creme é doce na medida certa. Porém, o creme também é um pouco óbvio. Colocando em termos que você certamente irá perverter, esta é uma sobremesa que, depois que você come a casquinha, o resto pode até deixar no prato.

Pois é. A gelatina não. Pra começo de conversa, gelatina é prática. Ela é, na verdade, exatamente o que você queria. Quando dá aquela vontade, sabe? É ela. A gelatina é, acima de tudo, confortável. É de uma cor vibrante, alegria jovial. Descolada, super diferente daquela outra sobremesa, que, diga-se de passagem, era sua preferida. Ou não? Então, se a perfeição do creme bruleé cansa, e além do mais, custa bem mais caro, porque não escolher a gelatina?
Assisti o filme novamente e devo dizer que não me desapontei. O final não muda nunca. É, acho que algumas pessoas simplesmente não tem bom gosto no que diz respeito a comida. Ou ao resto...

sábado, 22 de agosto de 2009

Para Fazer Gostar de Teatro

O Teatro Sesi orgulhosamente apresenta: Tristão e Isolda!


As luzes se apagsm e Tristão (Lorenzo Martin) aparece, de joelhos no palco. No instante seguinte, cerca de 20 atores transformam a calmaria do palco num verdadeiro campo de batalhas, e logo em seguida, numa animada festa no Reino de Cornoalha.
Adaptada brilhantemente por Vladmir Capella (também responsável pelo grande sucesso de "A Flauta Mágica") , a lenda medieval de Tristão e Isolda, que ficou conhecida após a consagrada opera de Wagner (1813-1883) datada do século VII, ganha nova vizualização aos olhos de jovens que participam do projeto Sesi para a formação de novo público para o teatro.
Tratando sobre temas universais e atemporais como amor, morte, loucura, desejo e traição, mas, sobretudo, valorizando um tema recorrente em sua obra, "o papel da arte", Vladmir apostou alto. Com jogos de sombra, trocas de figurino extremamente rápidas, cenário muito bem montado, velas que surgem do chão e uma plataforma giratória utilizada pelos atores no clímax da montagem, J.C. Serroni e Telumi Helen, responsáveis pelo trabalho atrás das cortinas, estão de parabéns! O cenário passa de densas florestas a ambiente de festas rapidamentem e isso se dá graças aos maquinários do Sesi, que neste aspecto é um dos melhores teatros de São Paulo.
Em sumo, a peça reune 110 minutos de uma história fascinante, bons atores, beleza e emoção, tudo em um pequeno palco que encanta os olhos de milhõs de espectadores.
Renata Calmon, Lorenzo Nartin, Kiko Pissolato, Monalisa Capella e grande elenco entam em cena para serem aplaudidos de pé e reverenciados com mais este clássico romançe lendário.
Provado e aprovado!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sociologia

As aulas de sociologia sempre me instigam a escrever. Plantam sementinhas de dúvidas e incertezas dentro de mim. Fazem-me pensar. Hoje o tema foi “Relação Social”.
A Relação Social é dividida em dois patamares. Pode ser uma relação social primária, entre duas pessoas, ou secundária, entre dois papéis sociais. Leia-se, uma relação “A amiga que sempre ajuda – A amiga que sempre se mete em encrenca” ou uma relação “Menininha Feliz-Vendedor de Flores”. Por que deve ser um ou outro? Não pode ser um e outro? Por que a menininha feliz – caso um dia esteja triste – não pode ir até a banca de flores conversar com o vendedor?
Uma relação primária traz consigo o afeto e a intimidade; são nossa família, nossos amigos. Uma relação secundária é o cobrador do ônibus, é o gerente do banco, a mulher da limpeza. Seus nomes? Não têm nomes. São ações, papéis, empregos.
Por que se julga que quando uma relação secundária transforma-se em primária, as coisas fogem do controle? Aposto que o vendedor de flores teria bons conselhos para dar à menininha, sem que isso afetasse em nada a floricultura. Pelo contrário. Acompanhem o raciocínio: Se a menina que estava triste por causa de um coração partido ouve os conselhos do vendedor – que à essa altura já devia ter um nome – ela volta a ficar feliz e segura de si. Segura de si, ela fica mais bonita. Mais bonita, arranja namorado. O namorado compra flores e o vendedor sai até lucrando na história!

Mas nããããão as regras sociais parecem muito boas, já que estão aí faz um tempão e ninguém se importa. Não acho que vá fugir do controle. Afinal, se algumas pessoas fossem menos profissionais, receberíamos mais “Bom-Dia”, mas sorrisos. Conseqüentemente nossos dias seriam mais alegres, nossa alegria contagiaria os outros, e o mundo pareceria um comercial de coca-cola. Nada mal humn?!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Capítulo Cinco - Batatas Podres

(A saga sobre comida está de volta!)

Era mais um domingo a noite qualquer, daqueles em que o completo ócio toma conta de mim. Inesperadamente, inédita no Discovery Travel, Ruth Reichl. Há tempos que não pensava nela... Seu último livro emprestei a uma amiga. O outro, creio eu, foi soterrado por livros e poeira em alguma prateleira de minha estante. Com o término de minha saga sobre este tema e o fim do estoque de idéias e mantimentos na despensa, parei de filosofar sobre comida.
Até, claro, que ela volta, estrategicamente falando-me sobre batatas podres.

A Receita:

1. Pique batatas. ( a quantidade que julgar necessário)

2. Misture uma colher de sal, duas de açúcar e meia xícara de fubá.

3. Acrescente água quente e deixe descansar, dentro do forno desligado por cerca de três horas.

4. Retire as batatas e reserve o líquido. (Não se assuste com o cheiro, que beira o insuportável)

5. Acrescente quatro xícaras de farinha, misture bem, cubra e deixe fermentar.

Quando a mistura estiver pronta (leia-se: podre), adicione outros ingredientes necessários para fazer pão caseiro. O resultado, evidentemente, é delicioso. Nenhum gosto é tão clássico ou reconfortante quanto ao do pão de batatas podres. E nenhum outro pão tem aparência tão bela.
Quando o programa acabou, me peguei pensando sobre essa questão um tanto... Filosófica. É difícil conseguir ver em algo podre, a possibilidade de algo bom, belo e verdadeiro. Assim como nas pessoas, é difícil encontrar valores clássicos, que em muito diferem dos valores vigentes hoje em dia.
Outra possibilidade: É justamente a parte podre que trás o sabor tão especial. São nossas falhas que nos fazem interessantes, nossos pecados que nos fazem saborosos.
No fim das contas, se tivermos jeitinho e paciência, é incrível o que podemos criar com qualquer espécie de comida. Deste modo, se investirmos tempo e cuidado em alguém, é também inacreditável o relacionamento que se pode construir. Por que um relacionamento é assim mesmo, como uma receita. Vai-se adicionando pouco a pouco cada ingrediente, nas quantidades necessárias. Às vezes é necessário deixar descansar por certo tempo. Devemos ter cuidado e atenção para não cortar as mãos, para não queimar os dedos. Mas apesar de levar tempo para ficar pronto, o resultado é sempre delicioso.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dia dos Namorados

Há quem diga que é só mais uma daquelas datas comerciais, criadas só pra fazer dinheiro - e para fazer com que nós, os singles, nos sintamos mal-amados, é claro. Bom, eu concordo plenamente. Pra quem namora, o dia dos namorados é todo dia, não é mesmo?
Bom, pra mim, há alguns anos que essa data passa completamente batida no calendário. Eu ignoro. Vou ao cinema e finjo que não vejo quando o filme acaba, todos os casais que sempre ficam um pouquinho a mais dentro da sala. Vou jantar fora e vejo que sou a única que não pede mesa pra dois e não divide a sobremesa - por que se for pra quebrar a dieta, eu quebro direito né?!.
Apesar dos pesares, de querer sair por aí queimando os cartõezinhos de dia dos namorados, de fazer passeata contra essa banalização e comercialização do amor alheio, eu fico bem quietinha no meu canto. Por que no fundo, bem no fundo, eu - e todas aquelas pessoas com mensagens engraçadinhas sobre os solteiros no subnick do msn e afins - sentamos no sofá ao final do dia, recostamos a cabeça na almofada, secretamente desejando que fosse o ombro de alguém.
Eu e todas estas aí pensamos como seria legal ter alguem pra passar essa data ridícula que é o dia dos namorados...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

No Parapeito da Janela

Fazia um dia feio e triste lá fora. Uma folha de papel saiu voando pela janela e caiu no chão. Gotas pesadas de chuva borravam tudo o que um dia tinha sido escrito. Pareciam lágrimas. Mas quem via de longe, só via uma folha de papel molhada.
Bateu o sinal. As crianças saíram correndo, e quando a manada finalmente passou, a folha nada mais era do que alguns pedaços de papel sujo, onde nada mais se podia ler.
Mas alguém observava. Alguém sabia o que ali havia sido escrito, um dia.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Provocação

É um acendimento de qualquer coisa dentro do peito.
Uma cutucada no desejo. A vontade de um beijo.
Uma captação de qualquer coisa imperceptível,
Como uma faísca, entre duas pessoas.
É um desafio. É como abrir os olhos.
Abrir as mãos, abrir os braços, abrir as pernas.
É olhar, e não poder tocar. Tocar e não poder sentir.
É ter por perto, e querer mais perto, do lado de dentro.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Fragmento

Abri os olhos. Meu corpo todo estava em êxtase. Era como se um milhão de estrelinhas me pinicassem, me fizessem levitar. Senti-me tomada por uma felicidade que veio subindo por dentro e tomou conta de mim. Virei-me na cama e toquei seu corpo quente, adormecido. Tentei lembrar-me de qualquer coisa acontecida na noite passada. Nada. Olhei em volta. O quarto era razoavelmente grande. Havia uma cama enorme, desfeita, evidentemente. O cinzeiro estava cheio, os cigarros transbordavam e as cinzas caiam na cama. Eu olhava para a garrafa quase vazia de whisky, e para o par de copos ao meu lado.
Levantei-me devagar e cobri meu corpo com a primeira coisa que consegui alcançar: uma camiseta surrada dos Rolling Stones. Fui ao banheiro e quase não acreditei no que via diante do espelho. Meu cabelo era um coque frouxo acima da cabeça. Meus olhos, duas manchas escuras, e todo o resto estava um caos. Apesar disso, o conjunto da obra até que fazia sentido. Congruente com o ambiente, e com a minha ressaca. Haviam pequenas marcas, aqui e ali, do que foi, ao que parece, uma noite longa, muito longa, e mal dormida.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Arte que Imita a Vida

Tema atualíssimo no Brasil e no mundo, os Reality Shows viraram uma espécie de febre que atinge todas as camadas sociais e as mais diversas faixas etárias. Apoiados na vida real, a proposta dos mais diversos programas que se encaixam nessa categoria é mostrar ao telespectador situações e problemas reais, bem como a reação das pessoas expostas a essas complicações.
Como exemplos, temos uma infinidade de programas nas mais diversas partes do mundo: Britain’s Got Talent, Hell’s Kitchen, American Idol... Podemos observar em todos eles algo em comum – pessoas competindo para atingir um objetivo – seja tornar-se uma celebridade reconhecida por seu talento musical, abrir o próprio restaurante, conseguir um emprego em uma grande firma, e assim por diante.
No Brasil também temos uma programação que, apesar de não ser infinita, atinge incríveis números de audiência. Nosso exemplo disto é o BBB. A família toda reunida para assistir o dia a dia de ilustres desconhecidos que, se você encontrasse na rua não saberia distinguir. É a “celebrização” do trivial, do inculto, do inútil. E mesmo assim, o programa já chegou a sua nona temporada.
Talvez a crítica que eu esteja tentando exprimir não esteja propriamente nos participantes do programa. Estes, pobres coitados, muitas vezes sonham com a fama a qualquer custo, tem de encarnar estereótipos sociais que nem sempre se encaixam em sua verdadeira personalidade, e tudo por uma oportunidade, mesmo que breve, de uma reviravolta no futuro.
A grande diferença está sim, no telespectador. O sucesso do programa está justamente no alto índice de audiência, na incrível quantidade de desocupados que se prostram na frente da televisão para assistir coisas que sequer merecem ser televisionadas e não fazem jus a sua audiência. Então, minha sugestão é a seguinte: mude de canal. Ou, melhor ainda, vá ler um livro.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

He's just NOT that into YOU.

Desde pequenas nós, mulheres, somos condicionadas a um pensamento diga-se de passagem, muito pouco racional. Vem aquele pentelho do seu coleguinha de sala e puxa a sua trança. Uma, duas, três vezes. Ele diz que te odeia, que você é feia e burra, e você acredita. Chega chorando em casa, e sua mãe, na melhor das intenções diz, como se estivesse te revelando uma sabedoria milenar: "Ele faz isso por que ele gosta de você!" O que na nossa cabeça de 8 anos faz todo o sentido do mundo. Está explicado! E é aí que começa o problema. Somos então, condicionadas a gostar que quem nem nos dá bola. De um moleque pentelho que realmente odeia você, acha as suas trancinhas a coisa mais ridícula do mundo, e riu de você quando você esqueceu a fala do poema na frente da sala toda.
E este "ensinamento" é uma coisa que (infelizmente) levamos para o resto da vida. Veja só:Você conhece um cara. Ele é bonitinho, super legal com você, interessante de verdade, não é infantil como todos aqueles outros idiotas com quem você se relacionou e já teve um outro relacionamento (leia-se: não tem fobia de compromisso). Você realmente gosta deste cara, mas não consegue saber se ele está ou não afim. (é aí que a sabedoria milenar entra em ação) Você inventa desculpas para a indecisão do cara: decide que ele está confuso, que tem traumas do ultimo relacionamento, que ele tem vergonha de ser romântico, que tem dificuldade em mostrar seus sentimentos, e por aí vai...

E de rodar em cima deste assunto, eu fico exausta. E o que cansa é na verdade, esse relacionamento cheio de joguinhos. Por que dizemos não quando a intenção na verdade é dizer sim? Por que "dar uma de difícil" ? E mesmo que toda nossa índole seja contra este tipo de comportamento exaustivo e sem sentido, acabamos por nos render a estes jogos imbecis, com medo de quebrar a cara. E frente a tudo isso, existe uma reação bem mais simples: sinceridade.
Mas se apesar de todos os jogos, das diretas e indiretas, nada acontecer, caia na real, ele simplesmente não está tão afim de você.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sabe,

Eu só queria dizer. Por que a gente nunca diz, né?
Você sabe, o estritamente essencial, aquilo que tem que ser dito.


A gente nunca diz.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O Tempo

Batidas na porta da frente, é o tempo...
E que tempo é esse? Por vezes tão sensato e cuidadoso, curando nossas feridas. Tão compreensivo, dando a nós mesmos nosso próprio momento. Dê tempo ao tempo, é o que todos dizem. E a gente dá. E vai dando. Até que dá ao tempo, todo o tempo do mundo, e não nos resta nada.
O tempo, uns dizem que se ganha. Ganha-se tempo tomando um atalho. Outros dizem que se perde. Perde-se tempo sozinho num labirinto. No fim, todo esse tempo é tempo passado. Tomou-se o atalho, perdeu-se no labirinto e no fim... No fim? Cada um está onde deveria estar, e onde estará, sob quaisquer circunstâncias. O que acontece é o momento no qual você chegou.
E é destes momentos que é feita a vida. E quando deixamos estes momentos passarem, culpamos o tempo.
Não há neste mundo um espaço de tempo que possa me fazer deixar de ver o que está diante de meus olhos. Não irá me fazer deixar de sentir o que amo, e de amar o que sinto, e de desejar o que quero, e de contar os minutos para que o momento certo chegue.
Mas depois, descubro que não há momento certo. De fato, não há momento algum, senão o presente momento. E se não fiz quando era presente, agora não há nada a se fazer, só a se lamentar.
Não é o tempo que muda, são as pessoas. São experiências que nos transformam, abismos que nos alertam, tapas que nos fortificam, e pedras que edificam uma escada, na qual só se pode subir. Sempre enfrente e nunca para. Essa é a nossa escada. É o tempo, o momento.
Mas não se preocupe. Se esse momento passou, outros momentos virão.

quinta-feira, 19 de março de 2009

PopArt

3Era uma mão estendia. Um contorno de unhas pintadas, de olhos pintados, de corpo pintado. Olhava diretamente para mim. Olhava? Será que realmente me via? Isto é, podia ver? Sorri meio sem graça. Ela estática, física, geométrica. O corpo milimetricamente desenhado, saído de uma história. De ação, de romance, de ficção talvez... Fictícia ela era? A mão ainda estendida.
Voltei à banca algumas vezes para comprar jornal, dissimular que queria encontrá-la novamente, que via a mão ainda estendida. Sempre. E foi num desses dias em que resolvi arriscar.
Olhei diretamente em seus olhos. Ela me olhou ainda mais fundo. Toquei a parede, o papel, sua mão fria. Apertei o papel e foi quando eu percebi. Ela apertou meus dedos de volta . Foi só um puxão e ela estava do meu lado. Ali, me encarando, parecia mais real do que nunca. Vendia-me algo? Comprava-me? Só custou um olhar, ela me ganhou.
Também para ela era uma novidade. Sentir outra pessoa, ouvir o caos da cidade que sempre esteve ao redor, o vento em seus cabelos, enquanto eu dirigia rápido pela rodovia. Tudo ganhava cor.
Rápido, rápido, mais rápido, até que tudo ao redor não passasse de borrões, que poderiam ter sido desenhados por uma criança de três anos. Ela era leve, tão leve que quase borrava também. Quase sai voando.
Levantei a capota do carro, mas ela pediu que não. Queria sentir o vento, que logo ficou mais forte e transformou-se em chuva. Gotas grandes e pesadas, caíam sobre sua face, apagando seus contornos.
Retornamos rapidamente à banca e antes que eu pudesse sentir o que é um beijo das histórias contadas nos livros, um beijo roubado, ganhado, comprado, que seja, um beijo qualquer, ela já estava de volta. Seu cabelo desarrumado por causa do vento. Seus olhos pintados estavam borrados. Era por conta da chuva? Eram suas lágrimas? Tinha lágrimas?
Me perguntava se nos veríamos novamente. Ela estava me observando do cartaz. Eu continuei andando, mas ela não me seguiu.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Deus

Se me fosse essencial definir, por algum modo ou ritual, uma crença ou religião, me parece muito mais lógico crer em Deuses, não em Deus.
A começar pelo fato de que me é muito difícil imaginar um só Deus que tenha o domínio sobre todas as coisas do mundo, que seja onisciente, onipresente e onipotente. Esse é um tipo de perfeição impossível, inexistente e incabível. Não acredito em um Deus que castigue, que não acolha, que pratique vingança, e principalmente, que segregue a todos que não crêem em si. Não quero um Deus que, mesmo certo e justo, apanhe do errado e injusto, e que ofereça a outra face, sem nunca revidar. Não, não quero este Deus.

“Quero um Deus que saiba dançar” dizia Nietzsche. Eu quero um Deus que dance. Quero um outro que cante. Quero um Deus que toque guitarra, um Deus que conheça os vícios do mundo e um que conheça o prazer que habita o fundo de um copo. Que conheça as viagens que se faz sem sequer sair do lugar. Quero um Deus que cometa erros, enganos. Quero um Deus que não tenha medo de admiti-los. Quero um Deus que ame profundamente, mas que ame um amor feito de carne e osso, e não de uma fé louca e sem graça. Quero que ele sinta ciúme, que deseje vingança, que grite a plenos pulmões. E então, são quinhentos outros Deuses que desejo. E cada um, um tanto maior, mais humano, mais real, mais perto de mim. Quero um Deus que seja possível.